quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Hoje é dia de Conto!!

Como toda quinta - feira é dia de conto o convidado de hoje é Fernando Moraes, ele já esteve por aqui.
Fernando é acadêmico de jornalismo e publicou este conto em um livro do projeto SESC de Lei de Incentivo a Cultura.
Como o espaço da blogosfera auxilia novos talentos então vamos divulgá-los!!
Espero que todos gostem de suspense :D grande abraço e boa leitura a todos.
Keli Wolinger


DISTRAÍDO PARA A MORTE – A PICK-UP MALTIDA

A carona

- Ei, você está indo pra onde? Quer uma carona? – perguntou Bartolo quase parando sua pick-up Chevrolet.

Do lado de fora, um homem caminhava lentamente sob o forte sol de verão, não dando muita importância para a pergunta dele.

A pick-up continua em marcha lenta e pára alguns metros a frente do homem que tira as mãos do bolso de sua jaqueta de couro cor de avelã, ajeita seu boné dos Yankees e anda até a porta do carona.

- Para onde você está indo? – indagou mais uma vez Bartolo esticando o braço deixando a porta do carona entreaberta. - Vamos entre.

O homem dos Yankees coloca a mão sobre a porta puxando-a lentamente.

- Meu nome é Bartolo – ele esticou a mão na direção do homem que fechando a porta, se acomoda no banco colocando a perna para fora a apoiando no retrovisor. - Ah, sem conversas? Tudo bem, você é que sabe.

A Chevrolet fica roncando e em seguida sai pela estrada rumo ao norte. Bartolo liga o rádio e endireita seus óculos de grau. Os dois ouvem Where Did You Sleep Last Night na versão do NIRVANA.

- Eu adoro essa música.

- Prefiro cantada pelo Leadbelly – retrucou o homem com o boné sobre o rosto.

Lamentamos interromper a música – começa a falar o locutor. Mas temos péssimas notícias – ele faz pausa e com a voz cortante volta a falar:

Hoje pela manhã a polícia achou o corpo de uma jovem no quarto do Motel 96. A jovem Mônica Andrade de 21 anos estava desaparecida desde ontem... ela foi brutalmente assassinada... E o que mais chamou a atenção deles... – o locutor sussurra um meu Deus! Era que todas as unhas de suas mãos haviam sido arrancadas.

Um silêncio mórbido surge no rádio, mas logo é quebrado com o retorno da música.

- Você reparou que tem sangue na traseira da sua camionete? – falou o estranho levantando um pouco a aba do boné.

Bartolo dá uma cuspidela pela janela e olha com rabo-de-olho para ele.

- Ah, o sangue? É da raposa que eu matei. Eu caço raposas.

- E por que você faz isso? Elas lhe fizeram algum mal?

- Não, não – respondeu ele com a voz um pouco presa. - Eu as empalho e depois as vendo.

- O que você acha? – indagou o homem mudando de assunto.

- O que eu acho do quê?

- Da jovem... que mal ela deve ter feito na vida para morrer desse jeito?

Bartolomeu com seus 48 anos não sabia como responder àquela pergunta, e não estava nenhum pouco a fim de conversar sobre aquilo.

- Eu fico pensando... Isso que é estar na hora e no lugar errado você não acha?

- É sim. Eu acho – Bartolo liga o limpador para tirar os restos de moscas do pára-brisa.

Mas à frente eles param em um posto de gasolina. Bartolo desce para abastecer, enquanto o outro caminhava lentamente até a loja de conveniências. Bartolo termina de abastecer e vai até a loja. Assim que entra ele não o vê, o que o faz pensar que por algum motivo deveria ter ido embora.

Assim que começa a sair do posto, Bartolo leva um tremendo susto ao ver aquele homem se enfiar na sua frente colocando as mãos sobre o capô.

- Você está louco? – ele gritou. - Você só pode estar louco.

- Me desculpe, mas tive que ir usar o banheiro.

O sol brilhava forte sob eles fazendo o asfalto parecer molhado no horizonte. De repente ouvisse um estouro vindo da traseira.

- Mas que merda! – esbravejou Bartolo. - Isso só pode ser brincadeira.

A pick-up pára mais a frente, fora da estrada. Com um trancão ele abre a porta e anda até a traseira, enfia a mão pro lado de dentro da carroceria pegando o macaco hidráulico e a chave de roda.

O homem também desce.

- Não se preocupe. - Eu resolvo isso rapidinho.

O homem parecia não ter escutado, pois anda até a mata e some entre algumas árvores.

- Ah, você está aí... pensei que tivesse sumido de novo.

Bartolomeu sente algo penetrar seu pescoço antes de cair morto.

Com um forte estalo metálico a carroceria é fechada. O estranho homem arruma a aba do boné para trás e anda em direção a frente da pick-up. Com a mão suja de sangue ele dá a partida e em seguida liga o rádio onde se ouvia Con Te Partiro de Andréa Bocelli. O retrovisor interno é ajeitado revelando sobrancelhas grossas e olhos profundos.

- Muito prazer Bartolo, meu nome é Charles.

A Ida

A chaleira assobiava sobre o fogão.

- Pode vir o café está pronto.

- Bom dia, mulher! Mas que cheiro bom – falou o marido andando com passos fortes sobre o assoalho. - O que você fez?

- Coloquei duas cascas de canela para ferver com a água. Para onde você vai com essa arma? – indagou ela.

- Você sabe muito bem para onde eu vou. Afinal tenho que colocar comida na mesa.

- E são os pobres animais que pagam por isso – ela disse enchendo a xícara com café.

- Tenho que ir. Senão eu não consigo chegar até as montanhas. Não esqueça de acordar aquele seu filho e mandá-lo cortar a lenha. – A mulher ganha um suave beijo na testa. E ao se sentar, vê seu marido partir fechando a porta.

- Scotch, venha cá. Cuide bem da casa – o cachorro larga dois latidos antes de se aproximar do dono. - Bom garoto, bom garoto – ele disse esfregando sua mão sobre o pêlo fino e ralo.

A porta da pick-up Chevrolet é fechada com força antes de sair levantando poeira na estrada. Ele ajeita sua espingarda de caça no banco e liga o rádio. – David Bowie cantava The Man Who Sold The World.

21:40 NOITE ADENTRO Bar

A pick-up pára no estacionamento. Lá dentro um emaranhando de gente se espremia nas mesas.

- O que vai querer para beber? – perguntou o barman.

- Uma cerveja bem gelada, obrigado.

- Ai que doideira essa gente toda – falou uma jovem debruçando-se sobre o balcão e dobrando uma das pernas. - Eu quero... espera um pouco, deixa eu me localizar. Eu quero duas cervejas bem geladas... uma para mim e outra para o meu amigo sentado ali naquela mesa.

- Aqui está a sua cerveja caubói. E você mocinha, espere um pouco OK?

- Oi tio, tudo bem? – indagou a jovem passando o dedo sobre o decote de sua camiseta regata justa. - Está sozinho aqui é?

- Pronto, pronto, mocinha. Aqui estão as suas cervejas.

- Muito o-bri-ga-da. – ela respondeu antes de sair cambaleando pelo bar.

- Então caubói, o que faz por aqui? – perguntou o barman puxando assunto. - Você não me parece estar atrás de diversão.

- Não. – ele dá um gole seco na cerveja. - Estou indo para as montanhas caçar.

- E que tipo de coisa está indo caçar?

- Obrigado pela cerveja, mas preciso ir andando.

Motel 96

Um carro em alta velocidade fura o sinal ao som do Rage Against The Machine antes de entrar na rodovia.

Aquele filho da puta. Vai ver só o que é bom. Como ele foi capaz de fazer uma coisa dessas? Mas ele vai ter o que merece, todos na cidade vão ficar sabendo.

21:35 NOITE ADENTRO Bar

O carro levanta poeira ao parar violentamente no estacionamento. A jovem entra no bar e anda até o balcão.

- Oi.

- Oi – respondeu o barman. - O que você está...

- Eu quero uma dose de tequila e agora.

- Tudo bem, mas eu acho que...

- Você não tem que achar nada – ela o interrompe mais uma vez. - Hoje eu quero me acabar.

- Pronto aqui está a sua tequila.

A jovem vira de uma vez só o copo e anda em direção as mesas.

- Posso me sentar aqui com você?

- Fique a vontade – falou um homem tomando um gole de cerveja.

- Observei você lá do bar – ela se virou na cadeira apontando para mostrar-lhe onde estava. - E notei... Ah, não interessa o que eu notei. Posso? – ela aponta para a caneca de cerveja sobre a mesa.

Endireitando-se na cadeira o homem empurra a caneca em sua direção. Ela a pega e toma em um só gole o resto da cerveja.

- Precisamos de mais. Eu já volto.

Uma cerveja bem gelada, obrigado.

- Ai que doideira essa gente toda. Eu quero... espera um pouco, deixa eu me localizar. Eu quero duas cervejas bem geladas... uma para mim e outra para o meu amigo sentado ali naquela mesa.

- Aqui está a sua cerveja caubói. E você mocinha, espere um pouco OK?

- Oi tio, tudo bem? – ela passa o dedo sobre o decote de sua camiseta regata justa. - Está sozinho aqui é?

- Pronto, pronto, mocinha. Aqui estão as suas cervejas.

- Muito o-bri-ga-da. – ela respondeu antes de sair cambaleando pelo bar.

- Demorei, mas cheguei – ela solta um riso estranho.

O homem pega a caneca e toma um gole.

- Que tal a gente sair daqui hein? O que você acha? – levemente sua mão desce e pousa sobre a coxa dele. - Venha eu conheço um lugar ótimo pra gente passar a noite – ela disse levantando-se da cadeira. - Te espero lá fora.

A jovem cambaleia até a porta saindo do bar.

O Homem ainda bebe mais um pouco antes de sair.

- Pensei que teria que ficar a noite toda aqui – ela falou entrando no carro. - Vamos entre! – Ela buzina ligeiramente duas vezes para ele.

MOTEL 96

- Você nunca mais vai se esquecer dessa noite – ela disse ao abrir a porta do quarto.

Assim que entram ela se vira para o homem tirando sua camiseta, fazendo seus seios brancos se arrepiarem por causa do ar-condicionado.

- Venha. Você pode fazer o que quiser comigo – ela dá as costas para ele.

- Eu estava mesmo pensando em fazer outra coisa – ele disse fechando a porta.

08:23

Bartolomeu joga as duas raposas no fundo da carroceria da sua pick-up Chevrolet e com as mãos sujas de sangue trava a porta seguindo de volta para sua casa.

O homem sai do quarto e entra em uma loja de conveniências que fica ao lado do motel. Ele se aproxima do balcão e diz:

- Vou levar aquele ali – ele disse apontando para um boné dos Yankees pendurando no mostrador.

- Boa escolha. Está um inferno lá fora – disse o atendente.

- Pode ficar com o troco.

Saindo da loja o homem segue andando sob o sol forte.

Fernando Moraes

4 comentários:

  1. Poxa, dar carona a um desconhecido, insistir nisso... Como tbm uma mulher sair com um desconhecido, é a mais completa total ingenuidade!

    Bjos, querida...

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  2. olá!!!!

    "Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive".

    Quero te convidar para conhecer meu blog....beijoks!

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  3. nada de caronas... se tem duvidas...

    Pergunte a Diva http://toligado1.blogspot.com

    Abraços!!!
    Brunno

    ResponderExcluir
  4. Fui entrevistado pelo De Tudo Um Pouco.... confira a entrevista neste blog!
    http://tdupouco1.blogspot.com/

    Abraços!!!

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